Sobre crespos, reconhecimento, beleza e felicidade.

21 Jan


Nasci no interior de Minas e vim morar no Rio de Janeiro (mais especificamente em Niterói) com dias de nascida. Minha mãe sempre lembra: “A Júlia nasceu com o cabelo lisinho e depois de algumas semanas começou a encrespar”. Durante muito tempo pensei que meu cabelo poderia e deveria continuar liso, afinal liso era lindo e bom e o meu cabelo era feio e ruim, pelo menos era isso que quase todas as pessoas a minha volta e a mídia me faziam acreditar.

Sou fruto de uma mistura muito louca de português e negro por parte de mãe e alemão com índio/negro por parte de pai. Não, meus pais não têm cabelo crespo, minha mãe é loira dos olhos verdes e meu pai negro do cabelo liso e, para complicar mais ainda, nenhum parente próximo tem cabelo crespo, logo quando eu era criança não existia nenhuma boa alma que sabia como tratar de um cabelo crespo como o meu. Até os meus três anos de idade tinha o cabelo curtinho, parecia um menino (principalmente quando minha mãe resolvia me vestir com all star, bermudão, colete e boné), depois minha mãe deixou meu cabelo crescer, mas foram raras as vezes que meu cabelo ficava solto e mostrava a que veio, na maioria das vezes estava preso, de maneiras diferentes, coquinhos pela cabeça, rabo de cavalo, trança, muita tranças e etc. A única pessoa que adorava e achava lindo o meu cabelo solto e cheio era uma tia avó minha, e toda vez que ela soltava meu cabelo, eu sentia vergonha e me achava feia, ai era eu mesma que tratava de embolar ele na tentativa de fazer com que o volume dele diminuísse.

Quando eu tinha por volta de dez anos de idade meu pai decidiu: ou eu dava um jeito no meu cabelo, ou ele cortaria meu cabelo igual a um menino (igual ao que eu tinha com três anos). E lá foi minha mãe me levar a uma rede de salões (na época nova) especializados em cabelos crespos e que tinha (e tem) um método inovador de relaxamento. Chegando lá, o tratamento só poderia ser iniciado com o cabelo seco, o meu estava úmido e preso (um atentado a qualquer cabelo), então começou o sufoco, minha mãe soltou meu cabelo, me levou para o lado de fora do salão (que fica em um shopping aqui em Nikity city) e começou a passar um pente na tentativa de separar os fios e secar. Meu cabelo virou uma juba ENORME, não tinha uma pessoa que passasse e não olhasse e por consequência, não entortasse a cara para mim. Naquele momento eu já me sentia horrível e queria matar minha mãe por me fazer passar por aquilo. Quando o cabelo secou, voltamos para o salão, e começou a tortura. O primeiro procedimento era dividir todo o meu cabelo em pequenas mechas e isso era feito com um pente relativamente largo, mas não me lembro de ter sentido tanta dor de cabeça como naquele dia. Depois passei para um local onde o produto era aplicado e meu cabelo foi desembaraçado novamente, dessa vez molhado e com um pente fininho, mais dor. Depois foi penteado e lá estava eu com o cabelo baixinho, mas ainda cacheado. E quando saí do salão ainda sentindo dor de cabeça e reclamando ouvi da minha mãe (e de muitas pessoas): “Quer ficar bonita? Tem que sentir dor”. Ouvi, concordei e continuei fazendo esse tratamento por alguns anos, até que o creme de pentear que eu tinha que usar começou a atacar minha rinite.

Em 2005 logo após o aniversário de quinze anos de uma amiga minha, viajei para Minas com amigos da família e lá me levaram para fazer mais um tratamento milagroso na tentativa de domar meu cabelo. Fui no salão, fiz o tratamento, dessa vez sem sentir dor. Voltei para Niterói, e meu cabelo começou a cair, não fiquei careca, mas meu cabelo quebrou a cerca de 10 cm da raíz (ok, eu também cortei uma franja ridícula escondida da minha mãe porque todo mundo tinha franja e eu não, só que todo mundo tinha cabelo liso e eu não). Em 2006 fiz quinze anos e no dia da festa (linda e arrasadora) fui fazer o cabelo no salão e claro que para fazer o penteado era necessário passar por escova e babyliss. Porém a cabelereira se deparou com um “problema”: segundo ela, não daria para alisar a minha raiz sem fazer relaxamento (contem comigo: o terceiro processo químico diferente em cinco anos), e lá fui eu fazer o relaxamento, a escova e o babyliss. Depois da festa continuei fazendo esse mesmo tratamento, até que cerca de dois anos depois resolvi fazer reconstrução capilar, que é parecida com uma escova dessas que existem aos montes por ai e saí do salão com o cabelo liso. De início achei diferente mais depois tinha a sensação de que não era eu, mas todos a minha volta me elogiavam e surgia um dilema com o qual tenho certeza que muitos se identificam: deixar como eu gosto e encarar o olhar torto dos outros ou deixar como os outros gostam e me sentir em outro corpo (ou em outro cabelo)? Decidi ignorar os outros e no dia seguinte lavei meu cabelo e ele voltou a ter cachos, meio murchos e abertos, mas ainda tinha cachos. Porém, voltei ao relaxamento e usufruí dele por muitos anos.

Entrei na faculdade, comecei a namorar, terminei o namoro, e o relaxamento (que a essa altura do campeonato me dava até alergia, meu couro cabeludo ficava queimado e ardendo, mas sempre lembrava: “Quer ficar bonita? Tem que sentir dor.”) lá fazendo parte da minha vida, tinha o cabelo grande e com pouco volume, meu cabelo chegou até a cintura e todo mundo babava por ele. Até que um pouco antes do meu aniversário de dezenove anos resolvi cortar o cabelo acima do ombro. Assim que fiz isso uma amiga tuitou uma frase para mim: “Dizem que a mulher que corta o cabelo, muda de vida.” Li, gostei, e coincidência ou não ela profetizou grandes mudanças, boas mudanças. Ok, essas mudanças não vieram de cara (com relação ao cabelo), ainda fiz relaxamento, reconstrução capilar, mas já começava a curtir o volume do cabelo, colocava flor, grampos diferentes, etc. Começava a pensar em assumir o meu cabelo como ele realmente era (e consequentemente assumir o que sempre fui, mas que não me reconhecia como: negra). Até que em maio de 2012 fiz meu último tratamento químico, a reconstrução térmica mais uma vez. Ai sim começou a minha verdadeira transformação. Continuava mantendo o cabelo entre o curto e o médio. Comecei a fazer hidratação regularmente e via que o meu cabelo começava a se transformar, tinha mais brilho, era mais solto. Algo que me ajudou muito nesse processo foi a arte, eu, que sempre desenhei, peguei gosto por desenhar pessoas, em sua grande maioria mulheres negras, negras com o cabelo black, que antes poderiam parecer estranhas, mas agora eram ícones de beleza pra mim. Comecei a pensar em cortar meu cabelo black, até que um belo dia, aconteceu, fui em outra cabelereira (que tem e adora cabelos crespos como eles são), levei uma foto e disse: é assim que eu quero. Ela não titubeou e cortou do jeitinho que eu queria. Saí de lá torcendo para o cabelo secar logo para que eu pudesse ver como tinha ficado. Quando me olhei no espelho me senti a mulher mais linda do mundo, nunca tinha me sentido tão eu. Depois disso, cortei o cabelo mais duas vezes (isso se transforma em um vício), uma vez para manter o corte anterior e a outra para tornar ele mais curto e ter minha nuca livre (juro que nunca tinha visto e nem sentido tão claramente a minha nuca). Acho que não preciso dizer que quase dois anos depois da última química meu cabelo voltou a ser o que sempre foi, só que muito mais bonito e mais bem cuidado, porque eu aprendi a cuidar e a amar ele. Consequentemente muitas pessoas a minha volta passaram a amar ele também, e as que ainda acham ele feio e ruim, o respeitam e não falam isso para mim, pois sabem a resposta que virá para tamanho preconceito (racismo mesmo). As pessoas que me veem na rua, muitas vezes entortam a cara sim, alguns conhecidos me perguntam porque não aliso e logo respondo: “Porque não gosto, porque amo ele assim desse jeito”. Ainda ouço de amigos ou de pessoas desavisadas, que cabelo crespo é cabelo ruim, ou piadas com isso, muitas vezes ignoro o discurso que me cansa só de pensar, mas muitas vezes rebato dizendo que não existe cabelo ruim, que isso é preconceito, racismo, mas sabe como é né, negros são paranoicos e quem decide o que é racismo ou não é quem nunca sentiu isso na pele.

E em meio a padrões, racismos e machismos da vida o cabelo crespo é para mim e para muitas outras pessoas a libertação, a libertação da sociedade, libertação de preconceitos que assimilamos, reconhecimento, reconhecimento de nossa beleza, a certeza de que para ficar bonita não tem que sofrer, não e que além disso, toda mulher é bonita do jeito que é e que nenhuma de nós tem obrigação de ser bonita dentro dos padrões da sociedade, afinal não somos objetos decorativos, reconhecimento da etnia, da cor da pele, reconhecimento de que não somos moreninhos, somos negros, não existe problema nenhum em assumir isso e acima de tudo felicidade, a felicidade que procede do amor próprio e da certeza de que sem esses cachinhos e esse volume não seríamos nós mesmos.

Texto feito pela Júlia Reis

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